
(escrito para o Portal Facool)
Na capa do livro, Los Angeles Times promete: "O melhor livro que você terá nas mãos". A expectativa é altíssima, mas logo nos primeiros parágrafos a paixão chega: avassaladora e irremediável. Pode não ser o melhor livro que você terá nas mãos, mas certamente será um deles, e numa vida de amores a livros a gente aprende que livros não são ciumentos e dá para amar vários de uma vez só. O premiado "A Visita Cruel do Tempo" será das paixões mais gostosas possíveis.
A história é dividida em treze capítulos e permeia a vida do produtor musical Bennie Salazar e de sua assistente Sasha. Não há linearidade cronológica ou narrativa: o tempo vai e volta, o narrador de cada capítulo é diferente e há capítulos em primeira, terceira e até segunda pessoa. Mas, entre as idas e vindas, a história se constrói de forma espetacular, falando não só do tempo como de música, de vida, de dramas. "Acho que o que posso dizer que mais traz foco às pessoas é que meu modelo estrutural foi o álbum conceitual dos anos 70. Algo como o Tommy ou o Quadrophenia, em que cada música parece diferente e a graça é quando essas partes diferentes se unem numa única história", diz a autora, Jennifer Egan.
O esqueleto da história toda é muitíssimo bem encaixado, e a mudança de pontos de vista narrativos, no lugar de romper a corda que une o romance, a fortalece. É uma delícia ler sobre a amizade repleta de flerte entre Sasha e seu melhor amigo, narrador em segunda pessoa de um dos melhores capítulos do livro. É maravilhoso ler sobre Bennie na adolescência, depois de já sabermos de seu sucesso como produtor musical, quando ele era só um jovem com sonhos demais, integrante de uma banda de rock fracassada. Melhor ainda porque não é ele que narra: não, é uma menina do seu grupinho na época, cuja melhor amiga teria um caso com o cara que levaria Bennie para o mundo da música. Confuso? Nem pensar. A teia de relacionamentos, sentimentos, frustrações e sucessos é complexa, mas se abre com clareza para o leitor, os muitos pontos cruzados sendo assimilados naturalmente, sem esforço. Culpa da maestria da autora.
O tempo também invade a história quase discreto, dissimulado, sem qualquer intenção, para dar uma rasteira uma ou outra vez. Cronologicamente, a história viaja num espaço de cinqüenta anos, sem qualquer ajuda de datas, números ou idades para situar o leitor. No lugar, são os relacionamentos que marcam a passagem do tempo, assim como a música e a tecnologia. A tecnologia, aliás, é outro tema que reina de forma despreocupada pelo romance - tanto que o penúltimo capítulo é composto por slides no PowerPoint, o diário moderno de uma personagem criança do futuro, algo como dez anos adiante. É fascinante também como mesmo com gráficos e fluoxogramas a autora consegue construir uma narrativa tão sólida quanto com a sua prosa incrível. No próprio capítulo a mãe da menina narradora critica o hábito de diários em slides, mandando que a filha escreva, "o que são todos esses espaços em branco?" - pois nos espaços em branco cabem dramas inteiros, o não-falado sendo tão importante quanto o que é dito de forma explícita. O capítulo é chamado "As pausas do rock'n'roll", e acaba funcionando como uma própria pausa musical no livro. No último capítulo a autora nos presenteia com um esboço curto, que facilmente pode passar despercebido, de teoria sobre engenharia social ou social media no futuro.
O livro ainda nos oferece alguns socos no estômago e reflexões forçadas, intercalando um presente feliz por uma visão do futuro com vícios de drogas ou suicídio, a revelação dada em uma frase quase que descuidadamente colocada ou em um capítulo inteiro que desmembra o fracasso e a frustração, ainda mais dolorosos porque acompanhamos junto os sonhos dos personagens. Porém, apesar de uma previsão de futuro que não é das melhores e do constante tapa na cara ao escancarar a verdade de que grande parte dos nossos sonhos não passam disso, essa experiência literária - muito mais que um livro! - ao menos para mim, termina otimista, deixando um gosto de ansiedade de que a vida é curta demais sim e há tanta coisa pra fazer. Por que não começar agora?
Libellés : Carpe Diem, Eu tenho cultura, Isso é Arte


Clarissa Réos Wolff, gaúcha, 21 anos, pisciana (com um grande quê de leonina). Cursou dois anos de Design de Moda na UniRitter e atualmente cursa Comunicação Social na UFRGS. Adoraria ser atriz da Broadway.
É apaixonada por coisas demais. Livros, filmes, seriados, divas do cinema de antigamente, Audrey Hepburn, Marilyn Monroe, Rita Hayworth, Brigitte Bardot, Anna Karina e Natalie Wood, pimenta, sushi, Coca Zero, café com chocolate, aliás qualquer coisa com chocolate, backstage, Adam Levine, Natalie Portman, Johnny Depp, Scarlett Johansson, Blake Lively, Jensen Ackles, trilhas sonoras de seriados, músicas nervosas, músicas gostosas, músicas tristes, passear sem rumo pelo centro de Porto Alegre, pelo Moinhos de Vento e pela Paulista, Beco203, Duchamp, Degas, Warhol, dançar até doerem os pés, Jägermeister, Cosmopolitan, Starbucks, livrarias, madrugadas, ficar sozinha em casa, saltos altos, sapatilhas, ouvir música a todo volume, suspense, lápis de escrever, cumplicidade, apresentar bandas novas pras melhores amigas, indicar filmes e livros, cultura inútil, fofoca de celebridade, chick lit, papelarias, personagens de livros, tumblr, mais tumblr, twitter, galerias, paixões platônicas, história de amor ou desamor, músicas lindas e tristes em volumes baixos, exageros, estrago, Barroco, homens com barba por fazer, músicos, escritores, aliás artistas em geral, John e Julian Casablancas, shows de bandas boas, narcisismo, história, história da Europa, francês, Marie Antoinette, Paris, aliás qualquer coisa ligada à França, outono, glamour, glamour decadente, inspiração, escrever, fotografia, arquitetura, moda, música, cinema, literatura, arte, ...
Duas tatuagens, por enquanto. Vícios demais em músicas, livros, filmes e seriados. Ambivalência completa. Intensidade também.
Caio Fernando de Abreu escreveu:
“Meu coração é um bordel gótico em cujos quartos prostituem-se ninfetas decaídas. Meu coração é um traço
seco. Vertical, pós-moderno, coloridíssimo de neon, gravado em fundo preto. Puro artifício, definitivo. Meu coração
é um entardecer de verão, numa cidadezinha à beira-mar. A brisa sopra, saiu a primeira estrela. Há moças na
janela, rapazes pela praça, tules violetas sobre os montes onde o sol se pôs. A lua cheia brotou do mar. Os
apaixonados suspiram. E se apaixonam ainda mais. Meu coração é um sorvete colorido de todas as cores, é
saboroso de todos os sabores. Quem dele provar, será feliz para sempre.
Meu coração é um filme noir projetado num cinema de quinta categoria. A platéia joga pipoca na tela e vaia a
história cheia de clichês. Meu coração é um cálice de cristal puríssimo transbordante de licor de strega. Flambado,
dourado. Pode-se ter visões, anunciações, pressentimentos, ver rostos e paisagens dançando nessa chama azul
de ouro. Meu coração é o laboratório de um cientista louco varrido, criando sem parar Frankensteins monstruosos
que sempre acabam destruindo tudo.
Meu coração é um poço de mel, no centro de um jardim encantado, alimentando beija-flores que, depois de
prová-lo, transformam-se magicamente em cavalos brancos alados que voam para longe, em direção à estrela
Veja. Levam junto quem me ama, me levam junto também. Faquir involuntário, cascata de champanha, púrpura
rosa do Cairo, sapato de sola furada, verso de Mário Quintana, vitrina vazia, navalha afiada, figo maduro, papel
crepom, cão uivando pra lua, ruína, simulacro, varinha de incenso.
Acesa, aceso - vasto, vivo.”

As you might have guessed, Upper East Sidders, prohibition never stood a chance against
exhibition. Is human nature to be free. And no matter how long you try to be good... you can't keep a bad girl
down.
2002 me trouxe aos blogs, com Refúgio de Calimië - com o qual permaneci até meados de 2005. Em 2006
os blogs deram lugar aos fotologs (um e dois). Em 2007 o tratamento quimioterápico fez com que retornasse aos
blogs, com Quarto de Hospital, que durou de Junho a
Dezembro. O gosto voltou, e Nobody Does It Better
nasceu - com o qual entrei para o Tudo de Blog da Capricho. Com os problemas com o servidor, mudei para cá.
"Sem Malícia" é uma expressão que costumava falar muito, sucedendo um comentário que poderia ser levado no
duplo sentido (o que acontecia quase sempre).